quarta-feira, 27 de outubro de 2010


Erradicação do analfabetismo tem pouco espaço nas agendas de campanha


 

Amanda Almeida - Estado de Minas

Publicação: 24/10/2010 07:09 Atualização:

O analfabetismo só entrou na pauta das eleições quando o letramento do palhaço Tiririca (PR-SP) foi posto em xeque. Segundo levantamento do site Observatório das Eleições, formado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o tema só foi citado pelos presidenciáveis Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) cinco vezes no segundo turno, mas apenas uma não se referia à possibilidade de os dois adversários incluírem em seus projetos a meta da candidata derrotada Marina Silva (PV) de erradicar o analfabetismo entre brasileiros de 15 a 30 anos em 2014. Como cortejo aos eleitores dela, ambos concordaram em cumprir a meta. No entanto, em nenhuma oportunidade explicaram como conseguiriam cumprir a promessa.

Os dois candidatos foram procurados pelo Estado de Minas na semana passada para comentar suas propostas para combater o analfabetismo. Enquanto Dilma, por meio de assessoria, informou que avançaria nos programas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o tucano, também por assessores, apresentou seu projeto para educação, sem tratar diretamente do tema. Em nota, a ex-ministra afirmou que, se eleita, continuaria o projeto do atual governo na área. "É seguir esse caminho para alfabetizar e possibilitar o acesso aos estudos a adultos que não tiveram essa oportunidade, um direito consagrado na Constituição", informa o texto.

O documento registra ainda que Dilma consolidaria a política de educação para jovens e adultos de Lula, mobilizaria a população para erradicar o problema, expandiria o acesso à escola – criando turmas noturnas –, ampliaria apoio a secretarias e fortaleceria o Programa Brasil Alfabetizado (PBA). Em seu oitavo ano, o PBA gastou R$ 2 bilhões e matriculou milhões de alunos. Mas, no mesmo período, o índice de analfabetismo caiu apenas 0,3 ponto percentual, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

Já a assessoria de José Serra informou que os projetos de educação do candidato estão disponíveis na internet. Sobre alfabetização, o site só apresenta a proposta do tucano para o ensino infantil. Ele se compromete a pôr duas professoras em turmas de letramento. Já a educação para jovens e adultos é ignorada. Questionada sobre a ausência de proposta, a assessoria do candidato informou que "os últimos dias de campanha estão atribulados e não havia tempo para elaborar uma resposta".

Empenho

Para o senador Cristóvam Buarque (PDT), ex-ministro da Educação no governo Lula, falta comprometimento aos gestores. "A verdade é que acabar com o analfabetismo não garante voto a ninguém. Assim, os candidatos prometem o que atrai mais os eleitores.

Quando eleitos, não se preocupam a convocar a população a resolver o problema", afirma. Para ele, os únicos projetos sérios sobre o tema foram o do educador pernambucano Paulo Freire, em 1964, no governo de João Goulart, e o início do Brasil Alfabetizado, quando estava à frente do ministério. "No começo, a proposta era erradicar o analfabetismo, depois se tornou um programa de alfabetização, o que não é a mesma coisa", comenta.

A alfabetizadora da rede municipal de ensino de Belo Horizonte Emilce Maria Soares destaca que o direito à educação a jovens e adultos que não a tiveram no tempo correto foi garantido pela Constituição de 1988, mas ainda não deixou de vez o papel. "A lei garante, mas a verdade é que o direito ainda não é plenamente respeitado. Mais do que alfabetização, é necessário formar conhecimento", diz.


 


 

Eleição de Tiririca expõe Brasil dos analfabetos Apesar de o país abrigar um contingente de 14,1 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever, projetos para acabar com essa triste estatística não tiveram espaço nos programas dos candidatos


 

Envergonhada, a diarista Luzia Silva de Araújo, de 53 anos, olhava para todos os lados ao entrar na seção de votação e ficava aliviada quando não avistava outros eleitores. Dos mesários, não dava para escapar. Eles descobririam de qualquer maneira quando ela assinasse o caderno de presença com o dedão. "Ser analfabeta é humilhante. Eu tentava esconder isso na hora de votar", diz. Ela espera deixar o status em breve, mas, por enquanto, integra o batalhão de 14,1 milhões de brasileiros iletrados, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2009 (Pnad). O contingente é maior do que a população de países como Portugal, Bolívia e Bélgica. Mas o tamanho do antigo problema não foi suficiente para ganhar espaço nas propagandas de televisão e rádio dos presidenciáveis Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) e só ganhou destaque nas eleições quando o palhaço Tiririca (PR-SP), eleito deputado federal mais votado do Brasil, com 1,3 milhão de votos, foi apontado como analfabeto pelo Ministério Público.

Enquanto a polêmica sobre a diplomação ou não de Tiririca como deputado ganha as ruas, o analfabetismo como problema social ainda não foi citado em debates televisivos no segundo turno. Entre os concorrentes à Presidência, o tema foi brevemente tratado no primeiro turno, quando Marina Silva (PV) comentava que não sabia ler até os 16 anos. Nas poucas vezes em que foram questionados pela então candidata, Dilma e Serra não se aprofundaram em propostas, limitando as respostas ao "vou investir em educação". Quase esquecido pelos adversários, o mundo dos analfabetos diminui a passos lentos. Em relação a 2008, o índice do ano passado mostra redução de apenas 0,3 ponto percentual na taxa de analfabetos com mais de 15 anos.

Se depender da velocidade de queda na taxa, o cumprimento das metas para o fim do analfabetismo no país exigirá esforços extras. Segundo acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 2015 o Brasil deverá ter 6,7% de iletrados. Mas, se o ritmo de redução dos últimos anos for mantido, em 2015 o país ainda registrará 7,9% de analfabetos. Há ainda outra meta: o Plano Brasil 2022, do governo federal, prevê que o problema social esteja erradicado em 2022. Mas especialistas da área não acreditam que a conquista seja comemorada no prazo e alertam que o resultado dependerá de mais investimento na área. "Se não houver mais compromisso e seriedade dos gestores, só a biologia se encarregará em acabar com os analfabetos. Ou seja, quando eles morrerem, teremos estatísticas melhores. É uma vergonha", comenta o senador Cristóvam Buarque (PDT).

O fim do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode receber a amarga notícia para os petistas de ter avançado menos do que a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) no combate ao analfabetismo. Em 1995, primeiro ano do tucano, havia 15,6% de iletrados no Brasil, segundo a Pnad. O ex-presidente terminou o mandato em 2002 com 11,8%, registrando queda de 3,8 ponto percentual em oito anos. Já no começo do governo Lula, em 2003, o país tinha 11,6% de analfabetos. O último levantamento, em 2009, apontou 9,7%. Em sete anos de PT, o índice caiu 1,9 ponto percentual.

Comparação

A lenta redução coloca o Brasil entre os piores índices percentuais de analfabetos da América Latina. Segundo estatísticas da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), de 2005, quando havia 11,1% de iletrados no Brasil. O país estava atrás de países mais pobres, como Barbados, Belize, Paraguai e Trinidade e Tobago, em números de alfabetizados. E, se as taxas de outros países se alteraram pouco, possivelmente a posição brasileira no ranking não deve ter melhorado com a queda nos últimos anos. Em 2005, o Peru estava à frente do Brasil com 8,4%. Cinco anos depois, o país continuaria atrás, com 9,7%.

A alfabetizadora da rede municipal de ensino de Belo Horizonte Roselene Ferreira, integrante da coordenação do EJA na Escola Municipal Deputado Milton Salles, acrescenta que a alfabetização deve ser vista como processo emancipatório. "Antes o analfabeto era visto como incapaz. Hoje é observado como um sujeito com amplo conhecimento que deve ser ampliado", diz. A aluna Mônica Márcia, de 39, faz parte do grupo do colégio e vibra com os primeiros avanços. "Já sei escrever meu nome, mas ainda tenho de me esforçar."


 

Jovens e idosos analfabetos relatam histórias de dificuldade e superação

A ordem era enérgica e não adiantava discutir: a filha estava proibida de se matricular na escola. Na cabeça do pai, em poucos meses, a "assanhada" arrumaria namorado. O relato de Maria das Graças da Silva, de 63 anos, que cresceu em Jequeri, Zona da Mata, é repetido por outras colegas da turma de Educação para Jovens e Adultos (EJA) que se reúne numa igreja no Alto Vera Cruz, na Região Oeste de Belo Horizonte. "Antigamente, pai não deixava sair de casa. Só me mudei para casar. Vieram os filhos e fiquei mesmo analfabeta", relata Maria. Ela está na faixa de idade mais crítica, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2009 (Pnad): 20,1% da população com mais de 50 anos é iletrada.

Como muitos companheiros do EJA, Maria não se dedicou aos estudos antes de criar os 19 filhos, hoje são 10 vivos. "Não tinha como guardar um tempo para os cadernos. Precisava colocar comida na boca dos meninos", diz. Mas ela alimentou o sonho de chegar à sala de aula durante toda a vida, marcada por traumas do analfabetismo. "É a pior coisa que existe. Não podia andar sozinha, não sabia o preço de nada, não conseguia pegar um ônibus. O mundo era feito de códigos que eu não conseguia decifrar. Minha carteira de identidade era uma digital sem assinatura."

Ele não quis mais procurar a escola, mas Maria aproveitou que os filhos cresceram e se matriculou na turma do EJA há três anos. "Para falar a verdade, não aprendi muita coisa ainda. Mas já sei assinar meu nome e até troquei a minha carteira de identidade", comenta, enquanto outros colegas dizem que também já fizeram a troca do documento. Apesar de várias experiências se repetirem, os grupos de EJA são heterogêneos, reunindo um público formado por jovens, idosos, trabalhadores e pessoas atendidas pela inclusão social.

Enquanto nas áreas rurais prevalece o programa Brasil Alfabetizado, nas capitais os grupos de EJA predominam. Em Belo Horizonte, o projeto foi implantado em 2004. Há 648 turmas e, no ano passado, 1.716 alunos foram certificados e deixaram de ser considerados analfabetos. "Consideramos um número significativo, mas ainda há o que avançar. A batalha é árdua. Ao mesmo tempo que precisamos investir nessas turmas, é necessário um esforço muito grande para que os jovens concluam os estudos na época certa", diz a diretora do Centro de Aperfeiçoamento do Profissional da Educação (Cape) da Secretaria Municipal de Educação, Gioconda Machado Campos.
Atrair os analfabetos à escola é um dos maiores desafios apontados pela diretora. "Para diminuir a dificuldade de eles chegarem ao espaço, criamos turmas em igrejas e centros comunitários. Para que eles não abandonem, tentamos fazer atividades diferentes, como visitas a museus e viagens."


Amor de mãe
. Ágata Kelly Silva Campos, 22 anos

Aos 10 anos, Ágata Kelly Silva Campos, hoje com 22, sofreu ao ver a mãe deixando sua casa no Jardim América, na Região Oeste de Belo Horizonte. A instabilidade na vida familiar teve reflexos na escola e, com baixos desempenhos, abandonou a sala de aula. Voltar aos estudos ficou ainda mais difícil quando, aos 20 anos, foi mãe e, um ano depois, teve o segundo filho. Até o ano passado, ela só sabia assinar o nome. "Mas percebi que precisava mudar isso para criar meus filhos. Quero ajudá-los na escola e me qualificar para ter um bom emprego. O mercado de trabalho é muito competitivo e o mínimo exigido é a leitura", diz. Mas deixar os filhos em casa para frequentar as salas de aula só foi possível com a colaboração da mãe. "Ela voltou para casa e tem me ajudado muito."

Superação
. Valcio Elcio Henrique, de 32 anos

São 15 anos de sala de aula e uma vontade infinita de aprender. Mesmo depois de tantos anos, Valcio Elcio Henrique, de 32 anos, continua arrumando com carinho o material escolar para ir à Escola Municipal Deputado Milton Salles, no Jardim América, na Região Oeste de Belo Horizonte. Ele tem deficiência cognitiva e faz parte do projeto de inclusão da Educação para Jovens e Adultos (EJA). "Quero aprender tudo. Já sei alguma coisa, mas ainda falta mais." Ele diz que largou a escola quando era criança, porque não gostava da professora. "Ela dava atividades bobas. Só queria brincar de colorir, recortar sílabas e colocar as palavras em círculos. Não me estimulava", comenta, mostrando o caderno com quase todas as folhas preenchidas. A letra redonda e caprichada mostra o avanço.

Fé na palavra
. Joanice Gomes de Oliveira, de 61 anos

A aposentada Joanice Gomes de Oliveira, de 61 anos, não falta aos cultos na igreja perto de casa, no Alto Vera Cruz, na Região Leste de Belo Horizonte. Atenta, ela fecha os olhos para guardar as palavras que o pastor pronuncia e já decorou algumas passagens da Bíblia. Mas ela quer mais. Analfabeta, Joanice entrou numa turma de Educação para Jovens e Adultos (EJA), com objetivo único. "Se Deus quiser, até o fim da minha vida vou conseguir ler um salmo e eu sei que Ele vai me ajudar", afirma. O livro sagrado foi também o pontapé para outros cinco colegas do grupo de 15 alunos. Joanice diz que já foi "de tudo" na vida. "Trabalhei como faxineira, servente, cozinheira, lavadeira... Não tinha tempo para estudar. A prioridade era dar um futuro para os meus três filhos biológicos e dois de criação", comenta.

Qualificação
. Maria Augusta Souza, de 78 anos

A aposentada Maria Augusta Souza, de 78 anos, sempre teve dificuldade para conseguir emprego e garantir renda capaz de sustentar oito filhos. "Analfabeto até acha emprego, mas é sempre de faxineira, lavadeira e pedreiro. Passa humilhação e ganha pouco. O mercado é praticamente fechado para quem não sabe ler", relata. E como a fome batia à porta com frequência, a educação ficava cada vez mais longe. Viúva e com os filhos criados, ela conseguiu realizar um sonho nos últimos anos: arrumou pela primeira vez uma mochila com caderno, lápis e borracha, pôs nas costas e seguiu para escola. A leitura ainda não é perfeita, mas ela já deixou um obstáculo para trás. Por anos, sentiu medo de visitar lugares desconhecidos. Quando era obrigada a enfrentar o desafio, os filhos a monitoravam por telefone.

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