quarta-feira, 27 de outubro de 2010


Erradicação do analfabetismo tem pouco espaço nas agendas de campanha


 

Amanda Almeida - Estado de Minas

Publicação: 24/10/2010 07:09 Atualização:

O analfabetismo só entrou na pauta das eleições quando o letramento do palhaço Tiririca (PR-SP) foi posto em xeque. Segundo levantamento do site Observatório das Eleições, formado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o tema só foi citado pelos presidenciáveis Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) cinco vezes no segundo turno, mas apenas uma não se referia à possibilidade de os dois adversários incluírem em seus projetos a meta da candidata derrotada Marina Silva (PV) de erradicar o analfabetismo entre brasileiros de 15 a 30 anos em 2014. Como cortejo aos eleitores dela, ambos concordaram em cumprir a meta. No entanto, em nenhuma oportunidade explicaram como conseguiriam cumprir a promessa.

Os dois candidatos foram procurados pelo Estado de Minas na semana passada para comentar suas propostas para combater o analfabetismo. Enquanto Dilma, por meio de assessoria, informou que avançaria nos programas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o tucano, também por assessores, apresentou seu projeto para educação, sem tratar diretamente do tema. Em nota, a ex-ministra afirmou que, se eleita, continuaria o projeto do atual governo na área. "É seguir esse caminho para alfabetizar e possibilitar o acesso aos estudos a adultos que não tiveram essa oportunidade, um direito consagrado na Constituição", informa o texto.

O documento registra ainda que Dilma consolidaria a política de educação para jovens e adultos de Lula, mobilizaria a população para erradicar o problema, expandiria o acesso à escola – criando turmas noturnas –, ampliaria apoio a secretarias e fortaleceria o Programa Brasil Alfabetizado (PBA). Em seu oitavo ano, o PBA gastou R$ 2 bilhões e matriculou milhões de alunos. Mas, no mesmo período, o índice de analfabetismo caiu apenas 0,3 ponto percentual, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

Já a assessoria de José Serra informou que os projetos de educação do candidato estão disponíveis na internet. Sobre alfabetização, o site só apresenta a proposta do tucano para o ensino infantil. Ele se compromete a pôr duas professoras em turmas de letramento. Já a educação para jovens e adultos é ignorada. Questionada sobre a ausência de proposta, a assessoria do candidato informou que "os últimos dias de campanha estão atribulados e não havia tempo para elaborar uma resposta".

Empenho

Para o senador Cristóvam Buarque (PDT), ex-ministro da Educação no governo Lula, falta comprometimento aos gestores. "A verdade é que acabar com o analfabetismo não garante voto a ninguém. Assim, os candidatos prometem o que atrai mais os eleitores.

Quando eleitos, não se preocupam a convocar a população a resolver o problema", afirma. Para ele, os únicos projetos sérios sobre o tema foram o do educador pernambucano Paulo Freire, em 1964, no governo de João Goulart, e o início do Brasil Alfabetizado, quando estava à frente do ministério. "No começo, a proposta era erradicar o analfabetismo, depois se tornou um programa de alfabetização, o que não é a mesma coisa", comenta.

A alfabetizadora da rede municipal de ensino de Belo Horizonte Emilce Maria Soares destaca que o direito à educação a jovens e adultos que não a tiveram no tempo correto foi garantido pela Constituição de 1988, mas ainda não deixou de vez o papel. "A lei garante, mas a verdade é que o direito ainda não é plenamente respeitado. Mais do que alfabetização, é necessário formar conhecimento", diz.


 


 

Eleição de Tiririca expõe Brasil dos analfabetos Apesar de o país abrigar um contingente de 14,1 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever, projetos para acabar com essa triste estatística não tiveram espaço nos programas dos candidatos


 

Envergonhada, a diarista Luzia Silva de Araújo, de 53 anos, olhava para todos os lados ao entrar na seção de votação e ficava aliviada quando não avistava outros eleitores. Dos mesários, não dava para escapar. Eles descobririam de qualquer maneira quando ela assinasse o caderno de presença com o dedão. "Ser analfabeta é humilhante. Eu tentava esconder isso na hora de votar", diz. Ela espera deixar o status em breve, mas, por enquanto, integra o batalhão de 14,1 milhões de brasileiros iletrados, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2009 (Pnad). O contingente é maior do que a população de países como Portugal, Bolívia e Bélgica. Mas o tamanho do antigo problema não foi suficiente para ganhar espaço nas propagandas de televisão e rádio dos presidenciáveis Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) e só ganhou destaque nas eleições quando o palhaço Tiririca (PR-SP), eleito deputado federal mais votado do Brasil, com 1,3 milhão de votos, foi apontado como analfabeto pelo Ministério Público.

Enquanto a polêmica sobre a diplomação ou não de Tiririca como deputado ganha as ruas, o analfabetismo como problema social ainda não foi citado em debates televisivos no segundo turno. Entre os concorrentes à Presidência, o tema foi brevemente tratado no primeiro turno, quando Marina Silva (PV) comentava que não sabia ler até os 16 anos. Nas poucas vezes em que foram questionados pela então candidata, Dilma e Serra não se aprofundaram em propostas, limitando as respostas ao "vou investir em educação". Quase esquecido pelos adversários, o mundo dos analfabetos diminui a passos lentos. Em relação a 2008, o índice do ano passado mostra redução de apenas 0,3 ponto percentual na taxa de analfabetos com mais de 15 anos.

Se depender da velocidade de queda na taxa, o cumprimento das metas para o fim do analfabetismo no país exigirá esforços extras. Segundo acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 2015 o Brasil deverá ter 6,7% de iletrados. Mas, se o ritmo de redução dos últimos anos for mantido, em 2015 o país ainda registrará 7,9% de analfabetos. Há ainda outra meta: o Plano Brasil 2022, do governo federal, prevê que o problema social esteja erradicado em 2022. Mas especialistas da área não acreditam que a conquista seja comemorada no prazo e alertam que o resultado dependerá de mais investimento na área. "Se não houver mais compromisso e seriedade dos gestores, só a biologia se encarregará em acabar com os analfabetos. Ou seja, quando eles morrerem, teremos estatísticas melhores. É uma vergonha", comenta o senador Cristóvam Buarque (PDT).

O fim do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode receber a amarga notícia para os petistas de ter avançado menos do que a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) no combate ao analfabetismo. Em 1995, primeiro ano do tucano, havia 15,6% de iletrados no Brasil, segundo a Pnad. O ex-presidente terminou o mandato em 2002 com 11,8%, registrando queda de 3,8 ponto percentual em oito anos. Já no começo do governo Lula, em 2003, o país tinha 11,6% de analfabetos. O último levantamento, em 2009, apontou 9,7%. Em sete anos de PT, o índice caiu 1,9 ponto percentual.

Comparação

A lenta redução coloca o Brasil entre os piores índices percentuais de analfabetos da América Latina. Segundo estatísticas da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), de 2005, quando havia 11,1% de iletrados no Brasil. O país estava atrás de países mais pobres, como Barbados, Belize, Paraguai e Trinidade e Tobago, em números de alfabetizados. E, se as taxas de outros países se alteraram pouco, possivelmente a posição brasileira no ranking não deve ter melhorado com a queda nos últimos anos. Em 2005, o Peru estava à frente do Brasil com 8,4%. Cinco anos depois, o país continuaria atrás, com 9,7%.

A alfabetizadora da rede municipal de ensino de Belo Horizonte Roselene Ferreira, integrante da coordenação do EJA na Escola Municipal Deputado Milton Salles, acrescenta que a alfabetização deve ser vista como processo emancipatório. "Antes o analfabeto era visto como incapaz. Hoje é observado como um sujeito com amplo conhecimento que deve ser ampliado", diz. A aluna Mônica Márcia, de 39, faz parte do grupo do colégio e vibra com os primeiros avanços. "Já sei escrever meu nome, mas ainda tenho de me esforçar."


 

Jovens e idosos analfabetos relatam histórias de dificuldade e superação

A ordem era enérgica e não adiantava discutir: a filha estava proibida de se matricular na escola. Na cabeça do pai, em poucos meses, a "assanhada" arrumaria namorado. O relato de Maria das Graças da Silva, de 63 anos, que cresceu em Jequeri, Zona da Mata, é repetido por outras colegas da turma de Educação para Jovens e Adultos (EJA) que se reúne numa igreja no Alto Vera Cruz, na Região Oeste de Belo Horizonte. "Antigamente, pai não deixava sair de casa. Só me mudei para casar. Vieram os filhos e fiquei mesmo analfabeta", relata Maria. Ela está na faixa de idade mais crítica, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2009 (Pnad): 20,1% da população com mais de 50 anos é iletrada.

Como muitos companheiros do EJA, Maria não se dedicou aos estudos antes de criar os 19 filhos, hoje são 10 vivos. "Não tinha como guardar um tempo para os cadernos. Precisava colocar comida na boca dos meninos", diz. Mas ela alimentou o sonho de chegar à sala de aula durante toda a vida, marcada por traumas do analfabetismo. "É a pior coisa que existe. Não podia andar sozinha, não sabia o preço de nada, não conseguia pegar um ônibus. O mundo era feito de códigos que eu não conseguia decifrar. Minha carteira de identidade era uma digital sem assinatura."

Ele não quis mais procurar a escola, mas Maria aproveitou que os filhos cresceram e se matriculou na turma do EJA há três anos. "Para falar a verdade, não aprendi muita coisa ainda. Mas já sei assinar meu nome e até troquei a minha carteira de identidade", comenta, enquanto outros colegas dizem que também já fizeram a troca do documento. Apesar de várias experiências se repetirem, os grupos de EJA são heterogêneos, reunindo um público formado por jovens, idosos, trabalhadores e pessoas atendidas pela inclusão social.

Enquanto nas áreas rurais prevalece o programa Brasil Alfabetizado, nas capitais os grupos de EJA predominam. Em Belo Horizonte, o projeto foi implantado em 2004. Há 648 turmas e, no ano passado, 1.716 alunos foram certificados e deixaram de ser considerados analfabetos. "Consideramos um número significativo, mas ainda há o que avançar. A batalha é árdua. Ao mesmo tempo que precisamos investir nessas turmas, é necessário um esforço muito grande para que os jovens concluam os estudos na época certa", diz a diretora do Centro de Aperfeiçoamento do Profissional da Educação (Cape) da Secretaria Municipal de Educação, Gioconda Machado Campos.
Atrair os analfabetos à escola é um dos maiores desafios apontados pela diretora. "Para diminuir a dificuldade de eles chegarem ao espaço, criamos turmas em igrejas e centros comunitários. Para que eles não abandonem, tentamos fazer atividades diferentes, como visitas a museus e viagens."


Amor de mãe
. Ágata Kelly Silva Campos, 22 anos

Aos 10 anos, Ágata Kelly Silva Campos, hoje com 22, sofreu ao ver a mãe deixando sua casa no Jardim América, na Região Oeste de Belo Horizonte. A instabilidade na vida familiar teve reflexos na escola e, com baixos desempenhos, abandonou a sala de aula. Voltar aos estudos ficou ainda mais difícil quando, aos 20 anos, foi mãe e, um ano depois, teve o segundo filho. Até o ano passado, ela só sabia assinar o nome. "Mas percebi que precisava mudar isso para criar meus filhos. Quero ajudá-los na escola e me qualificar para ter um bom emprego. O mercado de trabalho é muito competitivo e o mínimo exigido é a leitura", diz. Mas deixar os filhos em casa para frequentar as salas de aula só foi possível com a colaboração da mãe. "Ela voltou para casa e tem me ajudado muito."

Superação
. Valcio Elcio Henrique, de 32 anos

São 15 anos de sala de aula e uma vontade infinita de aprender. Mesmo depois de tantos anos, Valcio Elcio Henrique, de 32 anos, continua arrumando com carinho o material escolar para ir à Escola Municipal Deputado Milton Salles, no Jardim América, na Região Oeste de Belo Horizonte. Ele tem deficiência cognitiva e faz parte do projeto de inclusão da Educação para Jovens e Adultos (EJA). "Quero aprender tudo. Já sei alguma coisa, mas ainda falta mais." Ele diz que largou a escola quando era criança, porque não gostava da professora. "Ela dava atividades bobas. Só queria brincar de colorir, recortar sílabas e colocar as palavras em círculos. Não me estimulava", comenta, mostrando o caderno com quase todas as folhas preenchidas. A letra redonda e caprichada mostra o avanço.

Fé na palavra
. Joanice Gomes de Oliveira, de 61 anos

A aposentada Joanice Gomes de Oliveira, de 61 anos, não falta aos cultos na igreja perto de casa, no Alto Vera Cruz, na Região Leste de Belo Horizonte. Atenta, ela fecha os olhos para guardar as palavras que o pastor pronuncia e já decorou algumas passagens da Bíblia. Mas ela quer mais. Analfabeta, Joanice entrou numa turma de Educação para Jovens e Adultos (EJA), com objetivo único. "Se Deus quiser, até o fim da minha vida vou conseguir ler um salmo e eu sei que Ele vai me ajudar", afirma. O livro sagrado foi também o pontapé para outros cinco colegas do grupo de 15 alunos. Joanice diz que já foi "de tudo" na vida. "Trabalhei como faxineira, servente, cozinheira, lavadeira... Não tinha tempo para estudar. A prioridade era dar um futuro para os meus três filhos biológicos e dois de criação", comenta.

Qualificação
. Maria Augusta Souza, de 78 anos

A aposentada Maria Augusta Souza, de 78 anos, sempre teve dificuldade para conseguir emprego e garantir renda capaz de sustentar oito filhos. "Analfabeto até acha emprego, mas é sempre de faxineira, lavadeira e pedreiro. Passa humilhação e ganha pouco. O mercado é praticamente fechado para quem não sabe ler", relata. E como a fome batia à porta com frequência, a educação ficava cada vez mais longe. Viúva e com os filhos criados, ela conseguiu realizar um sonho nos últimos anos: arrumou pela primeira vez uma mochila com caderno, lápis e borracha, pôs nas costas e seguiu para escola. A leitura ainda não é perfeita, mas ela já deixou um obstáculo para trás. Por anos, sentiu medo de visitar lugares desconhecidos. Quando era obrigada a enfrentar o desafio, os filhos a monitoravam por telefone.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

PAULO FREIRE E A EDUCAÇÃO

        


 

A pedagogia de Paulo Freire nos quatro cantos da educação da infância

Adilson de Angelo*


 

RESUMO


 

O propósito deste trabalho é apresentar algumas idéias que podem motivar o debate em torno das possibilidades da educação da infância se constituir como um outro espaço/tempo onde as crianças são assumidas como sujeitos dialógicos do processo ensino-aprendizagem. Tendo presente as idéias do educador Paulo Freire, busca-se discutir determinados pontos que se consideram importantes para este debate. Do universo freireano destaca-se a possibilidade e os desafios da reinvenção de práticas pedagógicas que colocam em xeque determinadas posturas e identidades educativas antidialógicas que se consolidaram ao longo dos tempos. Este trabalho está relacionado com as grandes necessidades e as significativas emergências de repensar posturas pedagógicas presente nos trabalhos educativos na infância. Assim, buscamos analisar em que medida a pedagogia da conscientização de Paulo Freire pode ser visualizada como constructo teórico capaz de contribuir com a consolidação de uma pedagogia para a educação da infância que pretende se afirmar como espaço/tempo privilegiado, articulados por diversos contextos subjetivos, sociais e culturais, onde as crianças poderão ser assumidas como sujeitos críticos e criativos.

Palavras-chave: Paulo Freire; Educação; Educação da Infância; pedagogia da conscientização; pedagogia da infância.

1. Pontos de partida

Ao se consolidar, cada vez mais, como importante campo de investigação nas diferentes ciências sociais, a infância tem sido alvo de consideráveis produções no domínio destas mesmas ciências. Mas também parece possível assinalar a sua tímida presença - ou mesmo a sua assumida ausência - em determinados terrenos que se apresentam cruciais na constituição do campo das ciências da infância. Partindo da pedagogia, por exemplo, é admissível dizer que "a educação de infância constitui seguramente o domínio do campo educativo mais invisível no que diz respeito à expressão pública da reflexão sociopedagógica e política" (Correia, 2002:4).

No entanto, esta invisibilidade parece ser diminuída, uma vez que a intensificação do processo de escolarização das crianças pequenas e a busca de uma pedagogia capaz de respeitar os direitos infantis, são sinais que podem ser assumidos como exigências de uma maior atenção que a educação de infância reclama sobre si. A busca de pressupostos teóricos que pudessem subsidiar um novo olhar sobre as concepções de infância, de educação e de sociedade, tendo sempre como ponto de partida a criança na sua concretude histórica, acabou por aproximar profissionais e diferentes autores, com o objectivo de afinamento com uma fundamentação teórica que se apresentasse sólida, na constituição de uma proposta de educação de infância. A necessidade de afirmação de uma pedagogia da educação de infância - distanciando-se, cada vez mais, daquele debate que parecia reduzir as questões da educação e da infância às preocupações meramente didácticas - possibilitou o surgimento de um campo de conhecimento que se construía a partir de regularidades e peculiaridades muito próprios e que já não se via satisfatoriamente contemplado no amplo campo pedagógico. As especificidades da educação a ter lugar com crianças pequenas, acolhidas em programas de creche e pré-escolar, despontavam como mote para o que se pretendia afirmar como pedagogia da educação de infância, como parte de um campo mais amplo que pode ser denominado de pedagogia da infância.

Debruçar-se sobre as possibilidades e os limites do trabalho a ser desenvolvido neste campo da educação funcionaram, então, como um fio de Ariana, permitindo a muitos profissionais e teóricos uma incursão pelos labirintos epistemológicos existentes, afluindo naquilo que se foi denominando de pedagogia da educação de infância "ou até mais amplamente falando, de uma pedagogia da infância, que terá pois, como objeto de preocupação a própria criança: seus processos de constituição como seres humanos em diferentes contextos sociais, sua cultura, suas capacidades intelectuais, criativas, estéticas, expressivas e emocionais" (Rocha, 2000).

É nesta perspectiva de ir ao encontro de fios teóricos capazes de tecer uma pedagogia da educação de infância que se constitua como processo de construção histórica e política, colectiva e individual, que trazemos Paulo Freire a este debate. Da sua praxis pedagógica podemos ressaltar variados conceitos (sobre educação, sociedade, história, cultura, alfabetização, diálogo, leitura e consciência) que se apresentam como importantes contributos para a formulação de um conceito de infância despedagogizado e desnaturalizado, mas pedagógico e cultural, de onde se é possível conceber as crianças como sujeitos culturais, históricos e dialógicos.

Ao pretendermos Paulo Freire como convidado a entrar nesta discussão vemos aguçando, ainda mais, a curiosidade de procurar entender em que medida o mundo da educação de infância poderia ser lido e discutido, também, a partir da sua teoria. E em que medida ele pode contribuir com a efectivação de uma pedagogia da educação de infância que se constitua como espaço/tempo onde as crianças/sujeitos educandos são assumidos "como seres capazes de saber, de saber que sabem, de saber que não sabem. De saber melhor o que já sabem, de saber o que ainda não sabem" (Freire, 2000a: 40).

2. Paulo Freire e Educação de Infância: encontros possíveis?

Facilmente somos confrontados com uma possível distância entre a Pedagogia Freireana e as temáticas ligadas à infância e às crianças. A questão desta suposta ausência despertou-nos uma curiosidade: identificar dentro de algumas das obras de Paulo Freire a quantidade de vezes em que aparece referida a criança, a infância ou a educação infantil. Assim, sem uma pretensão de metodologia de análise de conteúdo, nos debruçamos sobre algumas de suas obras na expectativa de ver diminuída uma ausência e, consequentemente, uma distância entre o universo freiriano e o da educação da infância.

A leitura sobre o pensamento de Paulo Freire, com um olhar mais sensível a estas questões, acabou por nos proporcionar um encontro com determinados aspectos da sua pedagogia que, directa ou indirectamente, parecem fazer referência à educação de crianças. Assim, conseguimos identificar dois momentos que ele mesmo caracterizou como significativos para a consolidação do movimento que seria conhecido como Educação Popular, e que traduzidos pelo próprio Freire como encontros com as realidades que lhe permitiram dar partida às grandes questões colocadas em torno do projecto de educação que procurou defender ao longo dos tempos. Estes momentos são, na verdade, encontros com o universo infantil, onde, contactando com a realidade das crianças, Freire vai preparando-se para ser o educador que foi.

O primeiro deles, trazido das memórias da sua adolescência, refere aos encontros quer lhe permitiram conhecer a realidade de outros meninos, e é assim caracterizado pelo próprio Freire: "foram importantes as experiências de que participei na adolescência, com meninos camponeses, com meninos urbanos, filhos de operários, com meninos que moravam em córregos, morros, numa época em que vivíamos um pouco longe do Recife" (Freire e Betto, 2001:7).

O segundo encontro, conforme entendemos, onde Freire vai desvelar realidades que o ajudaram a radicalizar a sua prática crescente e consciente, é assim apresentado:

"Eu dirigia o Setor de Educação, que tinha a ver com escolas primárias para as crianças das famílias operárias. Aquele momento (...) foi a matriz (...) dos meus primeiros espantos (...) diante da dramaticidade da vida (...) Eu era diretor do Setor de Educação do SESI de Pernambuco e coordenava o trabalho de professores com as crianças. Fazia um trabalho com elas também no campo da aproximação entre a escola e a família. Aquilo que a gente chamava na época e chama até hoje de «Círculo de pais e professores». E foi exatamente vivendo a experiência dos círculos, a experiência da relação entre a escola e as famílias, que fui, inclusive, também aprendendo certos métodos de trabalhar" (Freire & Betto, 2001:8).

As suas experiências nos círculos de pais e professores neste trabalho do SESI constituíram importante referencial para que ele pudesse sistematizar e defender o trabalho com os temas geradores. A sistematização deste trabalho foi descrita no livro Educação como Prática da Liberdade (Freire, 1983), com a primeira edição em 1967, onde Freire apresenta algumas das ideias que seriam, mais tarde, desenvolvidas na obra Pedagogia do Oprimido (1974), escrita já no exilo. Poderíamos afirmar, portanto, que este exercício, de dialogar com a classe trabalhadora, tendo como ponto de partida a educação de crianças e problemas ligados à infância representou para Freire um aprendizado, do qual ele nunca se afastaria, que o faria um educador: "o que me fez chegar a isso foi a prática mesmo, foi o seu dia-a-dia, foi vendo como é que as crianças funcionavam na escola e como os pais funcionavam com as crianças, através de pesquisas, (...) além de leituras teóricas" (Freire & Betto, 2001:12).

Para Paulo Freire a atenção dada à realidade humana decorre da grande capacidade que tinha de conexão com o mundo. Ele falou de si próprio como um menino conectivo (Freire, 2000b:281) e esta sua característica se apresenta não apenas como uma marca pessoal, mas, sobretudo, epistemológica que lhe desafia à uma visão da realidade entrelaçada pelas diversidade histórica, política, étnica, de género, de classe, etc. Assim, parece-nos possível falar que a conectividade iniciada no menino Paulo Freire fê-lo perceber, desde então, o seu posicionamento diante do mundo e das pessoas como educador e educando.

A possibilidade do encontro como sujeito ensinante/aprendente com outros sujeitos, igualmente aprendentes/ensinantes, parece marcar a pedagogia freireana não como uma pedagogia para o/a outro/a, mas com o outro e a outra. Uma pedagogia, portanto, do sujeito solidário, contra o sujeito solitário1. Daí ser possível afirmar que ele "propõe uma pedagogia com o oprimido (subalterno) e não para o oprimido, o que significa sobre ele" (Scocuglia, 2006: 27).

Sob esta perspectiva, vamos encontrar na Pedagogia da Esperança Freire a descrever um dos momentos em que teve a educação de infância contextualizada nas suas teorias pedagógicas. Trata-se do relato do seu encontro com um grupo de trabalhadores espanhóis, imigrantes na Suíça, que queriam discutir com ele, a partir da Pedagogia do Oprimido, a constituição duma escola de educação de infância onde as crianças pudessem problematizar a sua própria vida e onde, "através da experiência de um pensar crítico em torno do mundo (...) [pudessem] estudar com seriedade, aprender, criar uma disciplina de estudo" (Freire, 2001: 139-140). Uma escola que seria na verdade problematizadora, como ele mesmo a denomina em seus relatos, e que - naquele momento de eclosão dos estudos althusserianos em torno da escola (Althusser, 1974) como reprodutora dos aparelhos ideológicos dominante -, precisava entender criticamente o seu próprio papel, bem como o papel que nela poderiam ter os seus educadores.

Freire analisa a possibilidade de uma escola que (ela mesma) seria objecto de reflexão das crianças e objecto de reflexão dos pais, cujo "interesse primordial seria diminuir o risco de alienação que seus filhos corriam, longe de sua cultura, risco reforçado intensamente pela escola suíça, indiscutivelmente competente, do ponto de vista dos interesses dominantes (...) [ao mesmo tempo em que procurava] estimular nas crianças uma forma crítica de pensar" (Freire, 2001: 140). Uma escola que pretendia, a partir da realidade dos seus educandos, problematizar a sua prática e analisar o seu currículo, não só o explícito, mas também o oculto. Que pudesse ter "uma educação aberta, democrática, que estimulasse nas crianças o gosto da pergunta, a paixão do saber, da curiosidade, a alegria de criar e o prazer do risco, sem o qual não há criação" (Freire, 2001: 141).

Nesta experiência de educação de infância problematizadora, Freire via as possibilidades de concretização de suas ideias descritas na Pedagogia do Oprimido. E ele mesmo aponta a coincidência que havia entre elas, ao afirmar que:

"A leitura da Pedagogia confirmava algumas das intuições que os haviam movido até a concretização de sua experiência. Toda a análise das relações dialéticas opressores-oprimidos, do processo de introjeção do dominador pelos dominados; as reflexões em torno da educação bancária, de seu autoritarismo, da educação problematizadora, do diálogo das démarches democráticas; a necessidade, numa prática educativa progressista, de serem os educandos desafiados em sua curiosidade; a presença crítica de educadoras e educadores e de educandos, enquanto ensinando umas e aprendendo outros, todos aprendem e ensinam, sem que isso signifique serem iguais ou que, quem ensina não aprende e quem aprende não ensina" (Freire, 2001: 141).


 

3. A Pedagogia da Educação de Infância e contributos freireanos

No campo da educação de infância, o termo pedagógico tem suscitado uma importante discussão, principalmente no tocante aos diferentes significados que esta mesma expressão pode proporcionar. A referência e o entendimento que procuramos desenvolver sobre uma pedagogia da educação de infância, busca ter em sua base uma significação cultural, extrapolando um entendimento simplista que pode reduzir este processo a um conjunto de actividades que se configura como escolar, feito apenas para/na sala de aula.

A constituição de uma pedagogia da educação de infância, subsidiada por importantes elementos fornecidos pela sociologia e pela antropologia (da infância) - principalmente no que se refere "a força da estrutura social na determinação das oportunidades cotidianas das crianças [e a forma como] culturas diferentes elaboram suas concepções e práticas educativas, [abriu caminhos para uma] maior flexibilização e inovação dos modelos de educação infantil" (Oliveira, 2002:80). Tornou-se, portanto, possível falar em pedagogia da educação de infância que, numa perspectiva interdisciplinar, prende-se a uma articulação entre elementos do conhecimento científico, da ética, da estética, do desejo, enfim de diferentes elementos de produção cultural, erudita e popular. Uma pedagogia que busca

"Valorizar, nas crianças, a construção de identidade pessoal e de sociabilidade, o que envolve um aprendizado de direitos e deveres (bem como) ampliar certos requisitos necessários para adequada inserção da criança no mundo atual: sensibilidade (estética e interpessoal), solidariedade (intelectual e comportamental) e senso crítico (autonomia, pensamento divergente)" (Oliveira, 2002: 49-50).

Partindo desta hipótese de que a educação de infância pode se constituir como o espaço/tempo de trabalho com crianças, tendo delas uma visão de sujeitos do direito, do desejo e do conhecimento, parece-nos possível falar de uma pedagogia da educação de infância, onde a escola pode ser assumida como espaço/tempo de trabalho entre educadores e educandos. Uma pedagogia que, questionando a escola como mero espaço de transmissão de conhecimento de um indivíduo para o outro, descontextualizado culturalmente, possa vislumbrar a sua constituição como espaço/tempo em que diferentes sujeitos desenvolvem relações de reciprocidade (cooperativa e conflitual) entre si, articulados por diversos contextos subjectivos, sociais e culturais. Ou seja, uma pedagogia da educação de infância, cuja prática esteja fundada nos princípios de uma educação na cidadania, em vistas do processo de emancipação dos educandos, que se apresenta como processo que pode contribuir com a "construção da humanidade do ser humano" (Souza, 2000:38).

No conjunto de ideias proposto por Paulo Freire, a tomada de consciência da nossa inconclusão, enquanto seres humanos, se constitui como principal ponto de partida para a construção da "humanização, do ser mais do homem - objectivo básico de sua busca permanente (...) [ou no] seu contrário: a desumanização, o ser menos"2 (Freire, 1971:127). Ambos os casos são possibilidades históricas, mas somente a busca de tornar-se um ser para si pode ser considerada a sua verdadeira vocação. Sendo possibilidade histórica, a construção da humanidade do ser humano - que tem na realidade existente o seu ponto de partida, onde o sujeito da busca, ao se afirmar como sujeito-mundo, consciente da sua possibilidade de ser mais, afirma-se como humano, constitui-se como processo cultural que se estabelece nas relações construídas entre os próprios seres humanos.

Para Freire, a educação como quefazer humano que ocorre num espaço e num tempo de interacção entre os sujeitos-mundo, se pode afirmar como processo que, esforçando-se no sentido da desocultação da realidade, contribui para que o ser humano existencialize a sua real vocação: transformar-se a si próprio, transformando a realidade. É portanto nesta

"[...] Inconclusão do ser, que se sabe como tal, que se funda a educação como processo permanente. Mulheres e homens se tornaram educáveis na medida em que se reconheceram inacabados. Não foi a educação que fez mulheres e homens educáveis, mas a consciência da sua inconclusão é que gerou a sua educabilidade. É também na inconclusão de que nos tornamos conscientes e que nos inserta no movimento permanente de procura que se alicerça a esperança" (Freire, 2002: 64).

Ao assumir a educação como espaço/tempo de conscientização do ser que se sabe inconcluso, todo o trabalho por ela empreendido pode contribuir com a construção da humanidade do ser humano. Assim, as ideias apresentadas por Freire, parecem abrir possibilidades para uma afirmação de que a educação de infância, como espaço permanente de busca do ser mais, também pode ser assumida como um momento de experiência dialéctica da humanização dos seres humanos, no processo de relação dialógica entre educadores e educando. A constituição deste espaço/tempo como um espaço/tempo infantil não afasta a possibilidade do desenvolvimento de um trabalho que pretende cultivar os valores da solidariedade, do amor e da amizade, do respeito às diferenças, do senso crítico, do aprendizado dos direito e dos deveres, pois "não importa com que faixa etária trabalhe o educador ou a educadora", a educação é sempre um processo a ser "realizado com gente, miúda, jovem ou adulta, mas gente em permanente processo de busca". Gente que, "formando-se, mudando, crescendo, reorientando-se, melhorando, mas, porque gente, capaz de negar os valores, de distorcer-se, de recuar, de transgredir" (Freire, 2002: 162-3)", pode ser sujeito da sua própria humanização.

Estes horizontes pedagógicos e estas possibilidades, que aqui assumimos também como um posicionamento político-ideológico e epistemológico, é que nos impulsionam a analisar as possibilidades de contribuição do pensamento de Paulo Freire e da acção freireana à consolidação de uma proposta pedagógica da educação de infância que redimensione as finalidades dos processos educativos a ter lugar com crianças pequenas.

A possibilidade de conferir à educação de infância uma dimensão problematizadora, nos moldes freireanos, pode significar afastamento ou a minimização do mero assistencialismo que, geralmente, serve à dominação, inibe a criatividade, tolhe a intencionalidade da consciência e nega aos educandos a sua vocação ontológica e histórica de ser mais. Contrariamente, uma educação libertadora pode proporcionar um trabalho educativo com crianças pequenas, fundamentado na criatividade que, estimulando a reflexão e a ação verdadeira dos educando e educandas sobre sua próprias realidades, poderá ajudá-los a responder "à sua vocação como seres que não podem autenticar-se fora da busca e da transformação criadora" (Freire, 1974: 83).

Esta possibilidade, como também orienta Freire, acaba por exigir uma nova postura do educador, a quem não será permitido negar a sua contribuição para que as crianças - sujeitos-educandos - se constituam, cada vez mais, como protagonistas do direito, do desejo e do conhecimento; sem deixar de considerar que o trabalho com crianças exige atenção "à difícil passagem ou caminhada da heteronomia para a autonomia" (...) [onde a sua presença] tanto pode ser auxiliadora como perturbadora da busca inquieta dos educandos" (Freire, 2002: 78 - sublinhado do autor). Porque, acrescenta ele, "não importa com que faixa etária trabalhe o educador ou a educadora. (...) é um trabalho realizado com gente, miúda, jovem ou adulta, mas gente em processo permanente de busca. Gente formando-se, mudando, crescendo, reorientando-se, melhorando, mas porque gente, capaz de negar valores, de distorcer-se, de recuar, de transgredir" (Freire, 2002:162-3 - sublinhado nosso).

A experimentação e, consequentemente, a vivência da educação de infância como realidade que pode contribuir com a desocultação de verdades, tornam-se imperativas para o exercício da intervenção crítica e criativa das crianças sobre o mundo, transformando-o sempre que possível. Isto acaba por requer e ser resultante de um novo ângulo de visão sobre o conceito de infância que permita emergir uma imagem de criança tomada com base em suas condições concretas de existência, social, cultural e historicamente determinada (Kramer, 1998). Ou seja, a criança entendida enquanto sujeito historicamente construído, mas não concluído. Por isto mesmo, um sujeito em processo permanente de busca do ser mais que, estando consciente da sua inconclusão, pode vir a ser protagonista da sua humanização, tornando-se cada vez mais gente mais gente.

4. A Educação de Infância como espaço dialógico

Desde os estudos de Philippe Ariès (1981), a atribuição de um significado social à infância tem contribuído para o desvelamento e a re-significação de conceitos construídos e sustentados em torno de uma ideia de infância que se caracteriza, apenas, como mera etapa biológica do ser humano. De entre estes poderá referir-se a própria ideia contida na palavra infância, que tem sido alvo de grande discussão, uma vez que etmologicamente esta palavra deriva da expressão latina in fans3 e quer significar "o que não fala" ou "o não falante".

A discussão em torno desta ideia da criança como sujeito que não fala, ou sujeito cujo poder do exercício da fala não é reconhecido como verdadeira fala, vem se realizando de forma muito intensa na educação de infância, suscitando, entre teóricos e profissionais, um significativo debate sobre o próprio papel da educação que tem lugar com crianças pequenas. Assim, a educação de infância pretendendo se constituir como um espaço/tempo pedagógico, onde educadores e educandos se afirmam como sujeitos historicamente construídos (cidadãos críticos, criativos e responsáveis, capazes de entender e intervir sobre a realidade vivida), tem, ao contrário, procurado afirmar-se como terreno fecundo para o exercício da fala.

Neste sentido se tem buscado no trabalho com crianças uma praxis viva, criativa e crítica, capaz de intensificar um conceito de infância despedagogizado e desnaturalizado (Kramer, 1998), que faz emergir a criança como sujeito da linguagem. Sujeito que a reproduz, mas que também a produz e que sendo feito de linguagem, se utiliza dela para se afirmar como sujeito histórico, pronunciando o mundo na tentativa de apreendê-lo e de transformá-lo, sempre que necessário. No âmbito desta discussão, e conforme entendemos, as contribuições de Paulo Freire sobre a importância e o papel do diálogo nos processos educativos, sobretudo o escolar, tornam-se preponderantes uma vez que fornecem importantes subsídios capazes de justificar a importância do diálogo construção da humanidade do ser humano.

Freire institui o diálogo, crítico e libertador, como base fundadora do que chamou processo de conscientização, em que o processo de formação, sustentado por uma dialogicidade permanente, permite aos educandos pronunciarem o mundo, mediatizados por este mesmo mundo, entendendo-o, descodificando-o e, quando necessário, intervindo sobre ele para transformá-lo (Freire, 1974; 2001; 2002). Por isso, defende que a pedagogia deve proporcionar uma educação problematizadora (em oposição a uma educação domesticadora), cuja prática educativa progressista desafia os educandos e as educandas em suas curiosidades, e exige dos educadores e educadoras uma redefinição do seu papel de ensinante, transformando-os em ensinantes-aprendentes, uma vez que "ensinando uns e aprendendo outros, todos aprendem e ensinam, sem que isso signifique serem iguais, ou que, quem ensina não aprende e quem aprende não ensina" (Freire, 2001: 141).

Defende, portanto, a possibilidade de existência dum espaço educativo dialógico competente, sério e alegre, que jamais deve "castrar a altivez do educando, sua capacidade de opor-se e impor-lhe um quietismo negador do seu ser" (Freire 2002: 33). E compreende que esta possibilidade pedagógica pode estar presente em todas as etapas da educação escolar.

4.1. Falando sobre a Roda de Conversa

"Toda vez que eu leio ou estudo alguma coisas de Paulo Freire ou sobre Paulo Freire eu penso: gente, Paulo Freire está presente nos quatros cantos da educação infantil. Quer dizer, ele pode estar presente em todos os cantinhos... em toda parte. A pedagogia dele é um desafio para quem trabalha com as crianças. Nas rodas de conversa, por exemplo, quando as crianças procuram entender o mundo a partir delas próprias, quando elas interpretam as realidades e apontam criticamente formas de mudar o mundo, o seu mundo? Isto não são as idéias de Freire presentes naquele canto da educação infantil, que é o canto do diálogo. Mas na educação infantil este não é o único canto onde ele deve estar presente".

O texto anteriormente apresentado é excerto de entrevista gravada com educadoras de infância. Ele constitui parte do material de pesquisa recolhido em um Centro de Educação Infantil, onde procuramos, através da investigação-ação e da recolha etnográfica, tomar como material empírico o trabalho pedagógico ali desenvolvido. Estas educadoras procuraram estabelecer uma forte ligação do que denominam Roda de Conversa, com as idéias que têm da pedagogia de Paulo Freire, justificando que esta prática reflete, na verdade, um posicionamento pedagógico que se funda na dialogicidade freireana.


 

A Roda de Conversa4 pretende ser, na educação de infância, um espaço de partilha e confronto de ideias, onde a liberdade da fala e da expressão proporcionam ao grupo como um todo, e a cada indivíduo em particular, o crescimento "na compreensão dos seus próprios conflitos" (Freire, M. 2002:21). Cada criança é desafiada a participar do processo, tendo o direito de usar a fala para expressar suas ideias, emitir suas opiniões, pronunciar a sua forma de ver o mundo. Falando e escutando o outro que fala, as crianças vão experimentando a construção colectiva de encaminhamentos necessários à resolução de conflitos que surgem no interior do grupo.

A Roda de Conversa é caracterizada por algumas educadoras de infância como "um dispositivo pedagógico muito importante, mas extremamente desafiante"5. A sua importância se justifica pelas possibilidades que proporciona em termos do exercício da responsabilidade individual e colectiva, do estabelecimento de metas e normas, a administração de problemas e conflitos, a tomada de decisões colectivamente e a prática da democracia (DeVries & Zan, 1998).

Por sua proposta de constituição como espaço do exercício democrático, onde a fala e a sua escuta são os principais instrumentos de participação, a Roda de Conversa torna-se uma actividade "desafiante" para o adulto que proporciona a sua dinamização. Desafiante porque exige que ele "tendo um papel de participante igual ao das crianças, tenha também o papel de coordenador da conversa, sem, no entanto, impor suas ideias ao grupo, castrar a altivez das crianças (como dizia Paulo Freire), tolher sua forma de organizar e apresentar ideias". A própria disposição física dos participantes da actividade (incluindo aí o adulto) - geralmente sentados em forma circular - representa de forma tangível o sinal de pertença democrática ao grupo.

A Roda de Conversa pode se dar em diferentes momentos ou situações. Nos momentos "instituídos", ela aparece como parte do planeamento realizado pelo educador e tem por grande objectivo a construção de ideias em torno de um tema gerador e das actividades necessárias para o desenvolvimento do processo. Nestes momentos as crianças são desafiadas a problematizar as questões que surgem e motivadas a uma apropriação do trabalho proposto, de tal forma que "se vejam nas actividades e as percebam como algo delas próprias". Nestas situações, os temas discutidos na Roda de Conversa são, geralmente, apresentados pelo educador. Mas há que ressaltar a preocupação com a não manipulação das ideias construídas, uma vez que "quem dá o mote, pode determinar o conteúdo ou direccionar as decisões".

Mas a Roda de Conversa pode se configurar nos momentos em que determinadas situações surgem e precisam ser resolvidas, conflitos precisam ser gerido, decisões precisam ser tomadas, ideias mais complexas precisam ser discutidas. Nos momentos exigidos, o educador como alguém que identifica as tensões que vão surgindo no interior do grupo, propõe a realização de uma conversa, onde a situação é confrontada por todos e em torno da qual se vai dando as variações que é a contribuição de cada um. Nesta ocasião, a roda funciona como um dispositivo democrático, um meio onde as crianças e os adultos podem ir compreendendo as questões que geram no grupo situações de mal-estar, de desconforto, de conflito... e emitindo suas ideias, seus sentimentos e seus desejos vão discutindo formas de resolver estas questões.

Tanto em uma como em outra situação a Roda de Conversa é caracterizada pelos educadores de infância como um recurso pedagógico que vai proporcionando o uso da palavra, que não é apenas som... mas que é, também, pensamento, concepção de mundo, acção, posicionamento diante da realidade.

4.2. Cruzando falas que se completam

Para Paulo Freire "uma das tarefas da escola, como centro de produção sistemática de conhecimento, é trabalhar criticamente a inteligibilidade das coisas e dos fatos e a sua comunicabilidade" (Freire, 2002: 140). Através do seu pensamento (e ao longo da sua experiência político-pedagógica, como ele gostava de destacar) fomos confirmando a sua opção e a sua defesa por uma educação que, enquanto processo de relação dialógica entre as pessoas e entre estas e o mundo, pode contribuir com a construção e a intensificação da humanidade do humano.


 

Nas falas recolhidas entre as educadoras de infância, sobre a significação da Roda de Conversa, percebemos determinada confluência com algumas destas ideias que configuram o pensamento Freireano. Neste sentido, podemos destacar o respeito ao saber do educando e a problematização da realidade, como pontos de partida de um processo educativo que permite ao educando "participar coletivamente da construção de um saber, que vai além do saber de pura experiência feito, que leve em conta as suas necessidades e o torne instrumento de luta, possibilitando-lhe transformar-se em sujeito da sua própria história" (Freire, 1991: 16). A significação da aprendizagem e o sentido que em torno dela é construído, se afirmam na mesma medida que buscam responder às exigências do grupo onde ela se dá.

É em torno das realidades humanas dos seus sujeitos (e principalmente em torno das tensões que colocam os sujeitos humanos frente a estas realidades) que a educação vai procurando tecer e confirmar o seu sentido, possibilitando aos seus sujeitos o exercício democrático da expressão ideias, sentimentos e desejos. Neste sentido, a Roda de Conversa pode ser entendida como uma resposta às necessidades de organização de ideias e gerência de conflitos, mas como uma resposta que vai sendo exigida pelo próprio grupo e que pretende cultivar os valores da solidariedade, do amor e da amizade, do respeito às diferenças, do senso crítico, do aprendizado dos direitos e dos deveres.

Na prática educativa, a liberdade e a oportunidade de dizer a palavra pronunciando o mundo são pontos de partida do processo de afirmação dos sujeitos que a integram. Podendo dizer, o educando se vai afirmando como sujeito que pode conhecer, que pode superar seus limites, entender seus conflitos, construir e encaminhar formas de intervenção sobre a realidade vivida.

A educação escolar ao proporcionar o exercício do diálogo horizontal entre os seus diferentes sujeitos, onde se é permitido dizer sem medo ou castração o que se pensa e o que se sente, preenche de sentido os seus reais objectivos. A constituição e afirmação do sujeito, "onde se propõe a construção do conhecimento coletivo, articulando o saber popular e o saber crítico, científico, mediados pelas experiências do mundo" (Freire, 1991: 83), se estabelece, portanto, nesta relação crítico-dialógica entre educandos e educadores e entre estes e o mundo.

As considerações sobre a Roda de Conversa, no confronto com as ideias de Paulo Freire, foram aqui apresentadas como forma de estabelecer um diálogo acerca do papel e da importância que o exercício da fala pode ter no trabalho desenvolvido com miúdos. E neste sentido também, as ideias de Paulo Freire foram aqui trazidas como forma de aprofundar o debate em torno desta temática, uma vez que a sua produção incide, principalmente sobre o diálogo como possibilidade de encontro com o mundo. Encontro que pode conduzir a um entendimento e a uma intervenção sobre esta realidade-mundo.


 

5. Considerações finais

Como ficaria, então, delineada uma pedagogia da educação de infância a partir das contribuições de Paulo Freire?

Sabemos que o recorte de ideias aqui apresentado, ainda não é suficiente para dar conta das possibilidades de contribuição de Paulo Freire para uma pedagogia da educação de infância. O que pretendemos foi apresentar algumas discussões sobre as possibilidades da educação de infância se constituir como espaço de humanização de suas crianças. E de que forma elas podem passar de objectos de desumanização à sujeitos de sua própria humanização, intermediadas por uma prática de conscientização dialógica, sem violentar os seus direitos infantis. Acreditamos que ensaiar possibilidades ou concretizar propostas para pedagogia da educação de infância que se pretende afirmar como espaço/tempo contrários à domesticação, deverá significar a re-invenção das próprias ideias deste autor, considerando as complexidades do universo infantil e as urgências nesta modalidade da educação.


 

De Paulo Freire podemos depreender que a educação não pode abrir mão da utopia. Ele acredita que ela deve ressaltar da esperança a sua capacidade de ser necessidade ontológica e requerer da utopia a possibilidade de tornar-se concretude histórica. Por isso não acredita na educação que humaniza, distante da utopia. E, radicalizando, chega mesmo a assegurar que somente na educação libertadora, há espaço para a utopia: é denunciando uma realidade vivida que se é possível projectar uma outra realidade desejável.


 


 

* Doutorando em Ciências da Educação da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação pela Universidade do Porto, orientado pela Profa. Dra. Luiza Cortesão; é integrante do Centro de Investigação e Intervenção Educativa - Núcleo de Pesquisa "Educação Multicultural e Estudos Freireanos". E-mail: adilsondeangelo@gmail.com; adilsondeangelo@yahoo.com.br

1 Expressões utilizadas pelo Prof. José Alberto Correia, na intervenção da sessão de abertura do IV Encontro Internacional do Fórum Paulo Freire "Caminhando para uma Cidadania Multicultural", organizado pelo Instituto Paulo Freire de Portugal e realizado no Porto, em Setembro de 2004.

2 Nos seus escritos posteriores, Paulo Freire irá substituir o termo "homem" por "ser humano", ou mesmo pelos termos "mulheres e homens". A opção de abandonar esta linguagem machista e autoritária, conforme ele mesmo declara, não foi apenas por questões gramaticais, mas sim ideológicas.

3 - A compreensão etmológica do termo infante nos leva a perceber que ele deriva do verbo latino de terceira conjugação fari, que significa "falar". Na sua conjugação, o particípio presente é fans, que significa "o que fala" ou "o falante". A adição do prefixo na sua forma negativa in, proporciona a expressão infans, que passa a significar "o que não fala" ou "o não falante" (Hansen, 2002: 62).

4 - Podemos encontrar diferentes expressões para caracterizar esta mesma actividade: "hora da roda", "hora da novidade", "hora da conversa" ou, simplesmente, "rodinha".

5 - Os textos que se encontram escritos entre aspas e em itálico são falas recolhidas entre as educadoras do centros de educação infantil e buscam exprimir as representações que têm sobre a Roda de Conversa.


 

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